Atos denunciam que abolição sem reparação manteve racismo, desigualdade e exploração. Reparações, já!

 

 

“13 de maio a Nação Nagô não faz festa não” (Tadeu de Obatalá)

 

Apesar de distância, Rio de Janeiro (RJ) e São Luís (MA) foram palco de dois atos no último sábado (12) que tomaram as ruas contra o racismo, a exploração e o genocídio da população negra no Brasil. Foram as marchas “130 anos de abolição sem reparações”, organizadas pelo Setorial de Negras e Negros da CSP-Conlutas, juntamente com outros movimentos negro, popular e sindicatos.

 

Um dia antes da Lei Áurea completar 130 anos de existência, os manifestantes tomaram as ruas, mas não foi para comemorar a abolição oficial da escravidão no país. Ao contrário, os atos marcaram a data como um dia de luta e denúncia do racismo que persiste até os dias de hoje.

 

Denunciaram o fato de a abolição oficial não ter sido seguida por reparações pelos mais de 300 anos de escravidão, bem como não ter havido nenhuma garantia de direitos aos negros e negras. Os escravos foram tirados das senzalas e jogados nas favelas, periferias e presídios. O repúdio à intervenção federal/militar no Rio de Janeiro, à criminalização da população negra e à violência policial foram marca nos protestos.

 

Medidas dos governos que atacaram direitos, afetando principalmente os trabalhadores e a população negra, como a Lei contra as drogas, aprovada no governo Lula (PT), que intensificou a criminalização e o encarceramento da juventude negra, assim como as recentes reformas do governo Temer (MDB), também foram duramente criticadas.

 

Como reparações históricas, os atos exigiram dos governos medidas como a titulação de terras quilombolas, a demarcação imediata das terras indígenas, garantia do direito à moradia, saneamento básico, educação, creches e hospitais públicos de qualidade, emprego e salário igual entre homens, mulheres, brancos e negros, o fim da violência e do racismo da PM contra negros e negras, a revogação de todas as reformas e medidas que atacam direitos, etc.

 

Rio de Janeiro

Na capital carioca, o ato reuniu manifestantes não só do Rio de Janeiro, mas da região sul e sudeste, de cidades de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Minas Gerais. As ruas de Madureira, bairro da Zona Norte da capital fluminense, se encheram de negras e negros para exigir reparações.

 

 

 

Teve passeata pelas ruas do tradicional bairro da zona norte da capital fluminense e além das falas das entidades presentes, teve apresentação de rap e samba, que prendeu a atenção da população que transitava pelo local.

 

A mobilização foi organizada pelo Setorial de Negras e Negros da CSP-Conlutas e entidades como o Quilombo Raça e Classe e Movimento Mulheres em Luta, juntamente com outras organizações do movimento negro como a Unegro, o MNU (Movimento Negro Unificado), Pérola Negra, Comitê de Reparações, sindicatos e partidos como PSTU e PSOL.

 

“13 de maio não é uma data para ser comemorada, mas um dia de luta para exigirmos justiça, uma dívida que historicamente o Estado brasileiro nos deve. Foram mais de 300 anos de escravidão sem qualquer garantia de direitos. E, como se não bastasse, os governos seguem atacando nossos direitos. As medidas do governo Temer, como a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista e a terceirização prejudicam com mais força os trabalhadores negros”, disse Júlio Condaque, do Movimento Quilombo Raça e Classe.

 

“As trabalhadoras e os trabalhadores fluminenses deixaram claro que não precisam de intervenção militar no Rio. Essa intervenção só serve para preencher o noticiário televisivo em horário nobre e reforçar a ideologia do racismo. A espetacularização da terrível violência urbana só incentiva o crescimento de homicídios das pretas e pretos do Rio de Janeiro. A classe operária não precisa disso. As trabalhadoras e os trabalhadores precisam de creches, escolas de qualidade para a juventude, postos de saúde e hospitais para prevenir epidemias como a febre amarela”, relatou Júlio.

 

“É necessário tomar os exemplos dos quilombos e começar a organizar o conjunto dos trabalhadores, em especial o povo negro e pobre, na construção de uma rebelião contra todos que os oprimem e exploram. A única forma para conquistar a verdadeira abolição, a liberdade de fato, a plena igualdade é fazer Palmares de novo, construindo um quilombo socialista aqui e em todos os países do mundo”, afirmou.

 

Maranhão

Em São Luís, no Maranhão, a marcha ocorreu no bairro da Liberdade. A forte chuva que caiu no sábado nem por um momento tirou a disposição dos manifestantes que percorreram o bairro mais negro da capital maranhense. Estiveram presentes quilombolas do Moquibom, a caravana do Piauí com indígenas, ativistas do Movimento Luta Popular, Movimento Mulheres em Luta, Quilombo Raça e Classe, Anel, Quilombo Urbano, Sintrajufe, Sinasefe, Sintes, movimento hip hop, além de representações de Pernambuco e Rio Grande do Norte.

 

 

Desde a concentração, várias manifestações ocorreram. Emocionou a batalha de rima e o rap dos estudantes do ensino fundamental da maior da escola municipal, a Mário Andreaza e a dança negra dos jovens do Cisaf (Centro de Integração Sócio-Cultural Aprendiz do Futuro).

 

Sob a benção de Magno de Ogum do Terreiro de Iemanjá, em frente à concentração, teve início o percurso da passeata até o Viva Fé Liberdade, onde iniciou o ato-show. Ainda sob forte chuva, as bandas Raio X do Nordeste, Gíria Vermelha, Becos e Vielas do Piauí, poesias de Preta Nicinha e Raquel, fizeram seu show e protesto, encerrando com a Banda Ylugerê.

 

Claudicéa Durans, do Quilombo Raça e Classe, ressaltou que a marcha foi resultado de um processo de construção dentro e fora do bairro, convocada pela CSP Conlutas. “Destacaram-se as reuniões no Ponto de Cultura do tradicional Bumba Meu Boi de Leonardo (sotaque de zabumba), as palestras e apresentação da pesquisa de dissertação de Mestrado sobre o Bairro da Liberdade da professora Ana Valéria, as visitas e atividades nas escolas, em particular no Mário Andreaza”, disse.

 

“Neste dia 12, esses atos deram um recado. Não nos calaremos diante do genocídio dos nossos jovens nas periferias, do encarceramento em massa dos jovens pobres e negros, do feminicídio, do desemprego, da precarização, informalidade, da ausência histórica de direitos sociais, trabalhistas e civis da população negra. Vamos à luta para exigir nossos direitos que nos foram negados pelo Estado brasileiro racista e pelas elites desse país”, disse.

 

“Reafirmamos que continuaremos lutando e vamos ter que arrancar essas reparações, com a nossa luta e organização, assim como fizeram Negro Cosme, da Balaiada, Zumbi e Dandara, de Palmares, Luiza Mahin, na Revolta dos Malês, Tereza de Benguela do Quilombo do Piolho, Luiz Gama filho de Luiza Mahin e tantos outras e outras”, concluiu.

 

A luta por reparações também foi tema de atividades organizadas pelo Movimento Quilombo Raça e Classe e Luta Popular em Jacareí (SP) e em Recife (PE).

 

 

Com informações CSP-Conlutas RJ e CSP-Conlutas MA

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